SERÁ QUE A "NOVA ECONOMIA" EXISTE DE FATO?
"Na Terceira Onda, o conhecimento é a principal forma de capital. Você e eu podemos usar o mesmo conhecimento ao mesmo tempo. Este fato, por si só, derruba o alicerce dos pressupostos tradicionais acerca do capital e abre um rombo na própria definição de economia como a ciência da alocação de recursos escassos"
*Alvin Toffler
As tremendas oscilações nos preços dos
mercados de ações em toda a parte na primavera de 2000 - por causa de colapso
dos preços das ações de empresas ligadas à Internet na Nasdaq e outros mercados
de ações; do encontro de cúpula, realizado em clima tenso, dos líderes europeus
em Lisboa ; e por causa da disseminação explosiva do Love Bug, o "vírus do
amor" - deu nova vida à discussão que há muito tempo vinha se desenrolando
discretamente entre investidores, funcionários governamentais, líderes
empresariais e o público em geral no mundo inteiro, de Seul a São Paulo. Será
que a "nova economia" existe de fato?
De um lado, ainda encontramos fundamentalistas financeiros que insistem que o
colapso no preço das ações de empresas de alta tecnologia prova que a nova
economia é mais exagero do que realidade. Os preços ensandecidos das ações de
tecnologia avançada eram apenas uma bolha, semelhante à Tulipomania holandesa
do século 17. O outro lado argumenta que está acontecendo uma verdadeira
revolução - a mais profunda desde a Revolução Industrial. Cada vez mais, a
riqueza está baseada no conhecimento, não nos fatores clássicos de terra,
trabalho ou capital, e, portanto, as antigas maneiras de determinar o valor de
uma ação deixaram de ser adequadas. Ambos os lados desse debate estão
equivocados. Ambos estão errados porque o mercado de ações, sendo movido por
uma mentalidade de rebanho, não é, de modo algum, espelho ou medida das
realidades econômicas subjacentes. Os fundamentalistas financeiros também estão
errados porque não chegam a entender a profundidade da transformação que está
ocorrendo nas empresas e nas economias. Em todas as empresas, mesmo em algumas
das maiores organizações da "velha economia", vemos mudanças de alto
a baixo não apenas na tecnologia, mas em tudo: mudanças que acontecem desde a
estrutura organizacional até mudanças nos sistemas de pagamentos, o rompimento
das antigas fronteiras que definiam os diferentes setores da economia, o
achatamento da hierarquia, a criação de alianças estratégicas em escala
mundial, o avanço rumo à globalização e não podemos senão concluir que
desconsiderar todas essas transformações simultâneas e cumulativas é muita
ingenuidade. E é duplamente ingênuo ignorar as mudanças que estão ocorrendo no
próprio capital. Não só o capital na velha economia era tangível, como também
implicava em "rivalidade".
Na Primeira Onda, ou sociedades agrárias, a principal forma de capital era a terra. Se eu cultivasse a minha terra, você não podia cultivar a sua plantação na mesma terra ao mesmo tempo. Era ou você ou eu, nunca ambos. O mesmo era - e ainda é - verdade para o capital nas economias industriais da Segunda Onda. Você e eu não podemos usar a mesma linha de montagem ao mesmo tempo. Tudo isso se inverte nas economias da Terceira Onda, nas quais o conhecimento é a principal forma de capital. Você e eu podemos usar o mesmo conhecimento ao mesmo tempo e, se o usarmos com criatividade, podemos até mesmo gerar mais conhecimento. Esse fato, por si só, derruba o alicerce dos pressupostos tradicionais acerca do capital e abre um rombo na própria definição de economia como "a ciência da alocação de recursos escassos". A economia, a despeito de suas pretensões, não é uma ciência. E o conhecimento não é um recurso escasso. Portanto, vovôs e vovós, existe, sim, uma nova economia. E ela é, sim, verdadeiramente revolucionária. Mas é precisamente por isso que o outro lado da discussão também está errado. Os defensores da nova economia prognosticam o momento como um crescimento econômico contínuo, suave e constante. Revoluções não avançam suavemente. A idéia de que a revolução digital irá gerar anos de prosperidade sem extrema turbulência e grandes convulsões é, portanto, tão ingênua quanto a noção de que a nova economia não existe.
* Alvin Toffler é o futurista com maior credibilidade e influência internacional. Toffler tem assessorado presidentes e primeiros-ministros de vários países e CEOs de importantes empresas em todo o mundo. A convite da HSM, Toffler estará no Brasil no dia 3/11 falando sobre 'A Economia do Futuro versus o Futuro da Economia'.