|
Em
busca do gênio da lâmpada Lampejos
intelectuais não aparecem do nada, idéias criativas são resultado de um
processo cognitivo complexo. Passo a passo pesquisadores do cérebro e
psicólogos desvendam o mistério do pensamento criativo.
|
|
Copyright
Image Bank - Getty Image |
Faz quatro
horas que estou diante do teclado, quebrando a cabeça; faço pausas para o café,
circulo pelo escritório, o olhar vagueia. Ao meu lado, pilhas de material para
a pesquisa: informação de sobra para o artigo que em três dias, no máximo,
precisa estar na mesa do redator-chefe. Até agora, apenas uma palavra no
monitor: criatividade - o assunto do texto. E quanto mais remôo as idéias,
menos tenho para pôr no papel!
Criatividade
(do latim, creatio = criação) é a capacidade de pensar produtivamente à
revelia das regras, é criar coisas novas combinando de maneira inusitada o
saber já disponível, diz o dicionário. Em Dirk, meu colega de escritório, essa
força criadora sobra. No momento ele faz ilustrações para a campanha
publicitária do novo modelo de uma fábrica de automóveis; a cada meia hora
produz um novo esboço, todos originais, divertidos - e às vezes até mesmo
geniais. Eu, pelo contrário, estou novamente olhando para o nada, à procura de
uma idéia luminosa. Será que me falta criatividade para escrever sobre a
criatividade? Talvez meu cérebro não sirva para se desviar das trilhas de
pensamento pisadas e repisadas por tantos outros, talvez jamais consiga
levantar vôo e percorrer novas rotas no espaço do espírito altaneiro... Oras, o
que é que Picasso, Einstein, Goethe e o colega Dirk têm que eu não tenho?
O segredo das
cabeças geniais já ocupava os cientistas no início do século XIX, em especial o
médico austríaco Franz Joseph Gall (1758-1828). Ele estava convicto de que o
espírito criativo teria de se manifestar em algum lugar no cérebro de quem o
detivesse, de modo que seria possível esquadrinhá-lo com base na forma, sulcos,
circunvoluções e peso do órgão do pensamento. Mas a tese de Gall era
comprovadamente um erro: a confraria dos chamados frenólogos jamais descobriu o
abaulamento craniano que identificasse o gênio, e a massa uniforme de células
cinzentas nada tem a dizer sobre as próprias qualidades.
Duzentos anos
mais tarde o tema criatividade parece mais atual que nunca. Líderes
empresariais e políticos exigem soluções inovadoras para problemas como o
desemprego em massa e o iminente colapso do sistema previdenciário. As empresas
enviam seus funcionários a workshops de criatividade, profissões
criativas como designer ou músico conquistam a preferência, mesmo em
relação a médicos e advogados, e nas livrarias perde-se a conta dos livros de
conselhos e treinamento em áreas ligadas à criação.
Em nossa época,
a pesquisa sobre a criatividade é um domínio dos psicólogos. Não é de
surpreender, afinal o dom de criar coisas novas está entre as melhores
qualidades do comportamento humano. Desde a invenção do fogo, da roda e da
imprensa, até a penicilina e a fissão nuclear - nosso desenvolvimento
evolutivo, da idade da pedra até o século XXI, só foi possível graças a um
fluxo inesgotável de lampejos criativos do intelecto. E onde têm origem todas
essas idéias? No cérebro!
Apesar disso,
só nos últimos anos os psicólogos vêm recebendo apoio das neurociências. Com
auxílio de procedimentos como a tomografia funcional de ressonância magnética
(TFRM) e a eletroencefalografia (EEG), pesquisadores tentam descobrir em que
lugar na rede de centenas de bilhões de células nervosas estala a centelha da
inspiração e por que razão é tão fácil para algumas pessoas produzir idéias
geniais em série. Além disso, informações valiosas sobre os mecanismos neurais
relacionados a processos criativos do pensamento procedem de pacientes que, por
causa de danos no cérebro, ou desenvolveram talentos criativos extraordinários,
ou perderam os que tinham.
Treinando a
criatividade
Mesmo que isso
não ajude muito a resolver minha falta de inventividade, os resultados das
pesquisas trazem em essência algum consolo e prometem esperanças para o futuro.
Pois criatividade não é um dom dos deuses e pode, isso sim, ser estimulada e
treinada. Isso não significa que haja em cada pessoa um gênio adormecido; mas o
pensamento criativo, como muitos outros processos criativos, segue regras
definidas. Nesse ponto os cientistas estão amplamente de acordo: é possível
criar as condições básicas necessárias para se aproveitar ao máximo o potencial
criativo de cada um, bastando, para isso, mudanças na postura e nas
"condições circundantes" que se oferecem. E o que está em questão, de
início, são coisas aparentemente muito simples: curiosidade, a vontade de
surpreender-se, a coragem de derrubar certas muralhas intelectuais e a
confiança em ser capaz.
Na opinião de
Steven M. Smith, do Grupo de Pesquisa em Cognição Criativa da Universidade
Texas A&M, é principalmente a última qualidade que faz falta a muitas
pessoas. "O pensamento criativo é a norma em qualquer ser humano e pode
ser observado em quase todas as atividades mentais", explica. Basta ver a
facilidade com que sempre produzimos frases novas e sensatas em uma conversa.
Com essa constatação, já não resta dúvida de que o cérebro de cada um é
essencialmente criativo.
Uma
alternativa ao assento ejetável
Mas por que o
"motor mental da criatividade" - segundo a designação de Smith para o
órgão do pensamento - para alguns está em atividade máxima permanente, enquanto
outros lutam dias a fio por um pouco de inspiração? Em todo caso, a
inteligência em sentido convencional parece não ser o critério decisivo. Alguns
dos primeiros a perceber tal coisa foram os militares americanos. Na II Guerra
Mundial, a Força Aérea dos Estados Unidos saiu em busca de pilotos de combate
que se mostrassem capazes de encontrar soluções inusitadas, também em situações
de stress. Em uma emergência, por exemplo, esses candidatos não deveriam
simplesmente acionar o assento ejetor, mas encontrar uma possibilidade menos
esquemática de salvar a própria vida e a aeronave. Na seleção foi usado
primeiro o teste clássico de inteligência. Mas os militares logo notaram que
esse método não era eficiente para encontrar os pilotos criativos que
procuravam. Um quociente de inteligência (QI) alto não é de grande serventia
quando se trata de resolver problemas que exijam soluções fora do comum.
Isso também
havia chamado a atenção do psicólogo americano Joy Paul Guilford (1897-1987).
Ele observou que a inteligência, com testes bem elaborados, pode ser mensurada
de maneira relativamente confiável, mas que o resultado não reflete a aptidão
cognitiva da pessoa como um todo. Sob tal ponto de partida, ele desenvolveu no
final dos anos 40 um modelo de entendimento humano que serviu de fundamento à
pesquisa moderna sobre a criatividade. O ponto decisivo na concepção de
Guilford foi a distinção entre pensamento convergente e divergente.
O pensamento
convergente visa diretamente a uma única possibilidade correta de solução para
determinado problema. Melhor exemplo dele são os famosos problemas matemáticos
do tipo "Paulo tem duas maçãs a mais que Pedro, Pedro tem duas vezes mais
maçãs que João. João tem tantas maçãs quanto Ana e Francisco juntos... Quantas
maçãs tem Pedro?" Baseando-nos em nosso saber disponível sobre as regras
aritméticas, procuramos ordenar as informações, submetê-las a uma concatenação
lógica e chegar, dessa maneira, ao resultado correto. Segundo Guilford, em
primeira linha os testes de QI exigem pensamento convergente. Afinal sempre se
trata de procurar, com auxílio da lógica, uma solução ortodoxa que se possa
classificar como certa ou errada, de modo claro.
No entanto, pessoas
criativas destacam-se sobretudo porque seu intelecto, ao confrontar-se com um
problema, supera os esquemas mentais já arraigados e trilha novos caminhos.
Guilford definia a criatividade justamente como a capacidade de "encontrar
respostas inusitadas, às quais se chega por associações muito amplas". E
aqui entra em cena o pensamento divergente, com a finalidade de produzir
diversas soluções possíveis. "No pensamento divergente avança-se para
muitos lados. Tão logo seja necessário, ele muda de direção e leva com isso a
uma pluralidade de respostas que podem ser, todas elas, corretas e
adequadas", explicou em 1950.
Ao mesmo tempo,
Guilford procurou estabelecer a capacidade de pensamento divergente no âmbito
dos testes psicológicos. A busca de um quociente de criatividade mensurável de
maneira inequívoca, semelhante ao QI, não teve êxito até hoje. E embora tenham
surgido alguns procedimentos desde então, como o Torrance Test of Creative
Thinking (v. fig. 1), no fundo ainda depende muito do julgamento pessoal do
observador a decisão sobre qual a mais criativa, entre diversas possibilidades
de solução em um caso específico.
Idéias
borbulhando
Sobre o
conceito de pensamento divergente, que ainda continua sendo bastante nebuloso,
os especialistas definiram até hoje pelo menos seis traços característicos:
·
Fluência de idéias: aspecto quantitativo da criatividade, ou seja,
quantas idéias e associações ocorrem para determinada pessoa, por exemplo
quando se apresenta a ela um novo conceito.
O modelo de
Guilford logo cativou alguns pesquisadores. Os neurocientistas eram movidos
sobretudo pela seguinte questão: se o cérebro domina duas maneiras tão
diferentes de pensar, não se deveria supor então que elas ocorrem em regiões
distintas? Caberia sobretudo às experiências de Roger Sperry revolucionar o
setor - embora o biopsicólogo não estivesse investigando a origem da
criatividade. Em seu laboratório no Instituto de Tecnologia da Califórnia,
Estados Unidos, Sperry trabalhava com os chamados pacientes split-brain.
Essas pessoas, por sofrerem de epilepsia grave, sem possibilidade de tratamento
medicamentoso, passaram por uma intervenção cirúrgica para separar-lhes o corpo
caloso, estrutura que liga os dois hemisférios cerebrais. Essa é a maneira
encontrada para se evitar que descargas nervosas incontroladas, durante um
ataque epiléptico, se irradiem por todo o cérebro.
Divisão do
trabalho no cérebro
Ao lado de
Michael Gazzaniga, Sperry submeteu esses pacientes a uma série de experimentos.
Com eles, fez uma descoberta inovadora, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de
Medicina de 1981: os hemisférios cerebrais esquerdo e direito não processam as
mesmas informações, mas dividem as tarefas entre si. O lado esquerdo é
responsável, em especial, por todos os aspectos da comunicação. Processa o que
se ouve, e também as informações escritas e a linguagem corporal. O direito,
por sua vez, ocupa-se do material não-verbal, processando imagens, melodias,
entonações, modelos complexos como expressões faciais, por exemplo, bem como
informações sobre o espaço e a posição do próprio corpo.
"One
brain, two minds" - as diferenças funcionais entre os hemisférios
cerebrais, praticamente idênticos na aparência externa, ocupam neurocientistas
e psicólogos cognitivos até hoje. Principalmente as pesquisas com pacientes de
ataques apopléctico confirmam essa dicotomia. Assim, danos do hemisfério
esquerdo ocasionam em primeira linha problemas com a linguagem. Se o ataque
acomete o lado direito do cérebro, a linguagem permanece intacta, mas perde-se
o esquema corporal e a orientação espacial. A percepção musical também é
atingida. Além disso, os pacientes têm clara diminuição de suas aptidões
criativas em áreas como pintura, poesia ou música - e até mesmo o talento para
jogar xadrez é prejudicado.
Em muitos
outros experimentos firmou-se mais e mais a constatação de que realmente há
duas partes distintas do cérebro, responsáveis cada uma delas por uma das duas
formas de pensamento propagadas por Guilford. Conforme revelaram os
experimentos, o hemisfério esquerdo responde pelos processos de pensamento
convergentes. Trabalha de maneira lógica, analítica, racional e se volta aos
detalhes. Em compensação, falta-lhe a visão dos nexos abstratos de ordem mais
geral. O pensamento divergente, por outro lado, é o forte do lado oposto. O
hemisfério direito é mais intuitivo, pode fantasiar, ter idéias repentinas;
privilegia uma forma de trabalho holística e é capaz de concatenar as peças do
mosaico de informações que chegam.
Mais que meras
letras
Suponha que
você esteja lendo um poema de Goethe. O hemisfério esquerdo analisa a seqüência
de letras, compõem-nas de modo que formem palavras e frases segundo as regras
lógicas da linguagem escrita, averigua se a gramática e a sintaxe resultam
sensatas, e apreende o conteúdo concreto. Mas é apenas o direito que fará do
poema mais que uma mera sucessão de letras, conceitos e sentenças. Ele integra
as informações a idéias e noções próprias, faz surgir imagens na mente,
reconhece o significado metafórico mais geral.
Curiosidade,
prazer de experimentar, ludicidade, coragem de correr riscos, flexibilidade
intelectual, pensamento metafórico e senso artístico desempenham papel decisivo
nos processos criativos do pensamento. Para a maioria dos neurocientistas, o
ser humano dispõe dessas capacidades graças a qualidades especiais de seu
hemisfério direito.
Mas se todos
temos um hemisfério direito, e portanto as condições básicas para fazer brotar
idéias não ortodoxas sem parar, por que a criatividade é um bem tão raro e
requisitado? Ora, talvez porque seja melhor dizer que detínhamos essas
condições! Na infância a força criadora praticamente não tem limites. É só
mexer um pouco aqui, misturar muita fantasia e imaginação, e pronto: a mesa da
sala e a velha toalha transformam-se - vapt, vupt - em um castelo, o aspirador
vira um cavalo, e a colher de pau uma espada. Educadores não cansam de criticar
que já nas primeiras séries se dê grande valor à solução correta das tarefas,
mas nem tanto a soluções criativas. A sociedade moderna, preocupada com
resultados, exige especialmente as qualidades da metade esquerda do cérebro, ou
seja, pensamento lógico orientado a um fim, habilidades matemáticas e talento
para línguas.
Com o tempo
parecemos internalizar cada vez mais essa maneira de agir - às custas do
potencial criativo. Pois o cérebro acostuma-se; e diante de um problema prefere
recorrer ao que já conhece, em vez de trilhar caminhos novos ou menos
conhecidos. Por não treinarmos nossa capacidade criativa, nosso espírito
criativo vai ficando inerte, dificultando a superação de bloqueios no
pensamento. Michael Michalko, um dos mais importantes treinadores de
critatividade nos Estados Unidos, certa vez formulou a questão da seguinte
maneira: "Quando só se pensa como sempre se pensou, só se vai manter o que
sempre se manteve - as mesmas velhas idéias."
Se no meu caso
não acontecem lampejos geniais, isso talvez ocorra porque meu hemisfério
esquerdo, aferido segundo a lógica, não deixa funcionar a máquina de
criatividade que se encontra do outro lado. Recentemente, Bruce L. Miller, da
Universidade da Califórnia, em San Francisco, constatou que a demência
frontal-temporal danifica seletivamente os neurônios dos lóbulos frontal e
temporal - ou seja, regiões cerebrais que controlam, além da linguagem, também
o comportamento social. Em decorrência disso, os pacientes com essa rara forma
de demência apresentam déficit cognitivo, perda de memória, e sofrem a redução
de suas capacidades no convívio social. Tornam-se introvertidos, comportam-se
de maneira estereotipada e quase não têm barreiras quando se trata de ferir
normas sociais. Em contrapartida, suas forças criativas parecem desenvolver-se
de uma maneira muito mais desimpedida, como se somente a doença permitisse que
se libertassem dos grilhões formais de sua formação.
"O último
lugar em que se esperam encontrar quaisquer aptidões desabrochando é o cérebro
de alguém cujas capacidades intelectuais estão se esvaindo por causa de uma
demência", surpreende-se. Mas neurocientista identificou pacientes que,
sofrendo de demência frontotemporal, desenvolveram um talento artístico surpreendente
- e isso, no caso de muitos, mesmo que nunca tivessem se interessado por
questões artísticas.
Com auxílio de
procedimentos por imagem, Miller constatou que também nesses pacientes a perda
de células nervosas atingia em primeira linha o lado esquerdo do cérebro,
tornando-os progressivamente anti-sociais. "Foi apenas com a perda das
coerções sociais e com o crescente desprendimento que essas aptidões
adormecidas puderam se desenvolver", explica, para em seguida traçar um
paralelo com gênios criativos como van Gogh ou Goya, que ignoraram normas
sociais para viver de maneira plena suas idéias criadoras não ortodoxas,
contrariando as convenções de sua época. A capacidade de simplesmente
ultrapassar limitações sociais e cognitivas seria assim uma qualidade típica de
grandes artistas.
Mas engana-se
quem pensa ser seu hemisfério esquerdo o único impedimento para que afinal
possa vir à tona o gênio latente em si mesmo. Embora as idéias novas borbulhem
predominantemente ao lado direito, nem toda idéia inovadora é necessariamente
boa. Pelo contrário, não é raro que lampejos intuitivos simplesmente passem ao
largo do problema proposto ou sejam mesmo malucos e nada mais.
As conquistas
criadoras e significativas destacam-se por serem úteis, relevantes ou eficazes.
Elas têm que convencer as pessoas. Assim como a lâmpada de Thomas Edison. De
acordo com esse critério, todo lampejo intelectual deveria ser considerado
segundo sua utilidade. Para isso convergem diferentes normas e valores, que
decidem se uma idéia nova deve sucumbir à censura crítica. E durante essa fase
de avaliação do processo criativo do pensamento quem toma as rédeas é o lado
esquerdo do cérebro - pois agora entra em cena o pensamento lógico. "O
cérebro esquerdo mantém o direito na linha", é como descreve a situação
Ned Herrmann, autor do livro "The Creative Brain" [O cérebro
criativo]. Somente o lado esquerdo, com uma atividade estritamente racional,
torna possível ao produtor de idéias analisar se seu insight pouco
ortodoxo, vindo do hemisfério direito, realmente contribui para a solução do
problema. Por isso, segundo ele, a criatividade sempre tem a ver com o cérebro
todo.
Lampejos
fundamentados
No âmbito de
uma ruptura criativa recorre-se ao pensamento convergente, o que demanda
participação do hemisfério esquerdo. Assim como um relâmpago, tampouco o
lampejo intelectual poderia vir de um céu sem nuvens: ele baseia-se sobre um
sólido conhecimento objetivo. Em geral, espíritos criativos são especialistas
em determinada área. Embora não seja impossível, é muito improvável que se
chegue a uma idéia grandiosa sem ter se ocupado intensivamente da respectiva
área. Mesmo Einstein trabalhou anos a fio na teoria da relatividade antes de
chegar a sua tirada de gênio E=mc2. Thomas Edison, até hoje
recordista máximo em número de invenções, com 1093 patentes registradas, chegou
ao ponto de maneira muito sensata: "Gênio quer dizer 1% de inspiração e
99% de transpiração."
O intelecto em
viagem de descobrimento
Com isso Edison
descreve uma característica essencial da fase de preparação: ela é desgastante
e pode tomar muito tempo. Isso leva muitas pessoas a fracassar em sua busca de
boas idéias inovadoras. Identificado o problema, é preciso confrontar-se com
ele e iluminá-lo a partir de todos os ângulos conhecidos e também de novos e
desconhecidos. Pois um segredo da criatividade consiste em mudar a perspectiva
e considerar as coisas sob uma nova luz. É nesse ponto que as técnicas de
desenvolvimento da criatividade procuram centrar-se. Diante disso, não faz
sentido enfocar em demasia a solução. O processo todo deveria assemelhar-se a
uma viagem de descobrimento que pudesse levar a todas as direções possíveis. E
aqui entra em jogo mais uma vez os conhecimentos sólidos de base, já que
soluções novas surgem à medida que sempre reordenamos idéias, noções e
intuições existentes, como peças de um jogo de montar.
Também o
pesquisador da criatividade Steven M. Smith acentua a importância da combinação
de idéias no pensamento criativo. Segundo ele, as maiores perspectivas de
sucesso estão com quem estabelece ligações entre áreas completamente diversas.
Pessoas particularmente inventivas têm o dom de relacionar coisas entre si,
mesmo que à primeira vista não haja qualquer nexo entre elas. Mas quanto mais
se souber, mais fácil será desenvolver soluções criativas.
Nesse contexto,
Shelley Carson, da Universidade de Harvard, fez uma descoberta interessante.
Pesquisou 25 estudantes que se distinguiram por apresentar resultados criativos
extraordinários. Segundo constatou, no cérebro dessas pessoas a assim chamada
inibição latente tem cunho visivelmente mais fraco que nos colegas menos
criativos. Esse mecanismo cognitivo cumpre no órgão do pensamento uma espécie
de função de filtração. Por meio da inibição latente são apagadas da grande
desordem de dados que flui a cada segundo para nosso sistema sensorial as
informações que segundo a experiência parecem-nos menos importantes. E esse
apagamento se dá antes mesmo de que as informações cheguem a nossa consciência.
Assim, elas não
oneram a capacidade do cérebro, mas tampouco ingressam nos processos do
pensamento. Ora, como a criatividade é a capacidade de ligar frações de dados
esparsas, e então concatená-las de modo a formarem algo novo, uma inibição
latente menos pronunciada ajuda o espírito inventivo a dar saltos maiores. Com
a inibição menor, o cérebro criador recebe uma quantidade maior de material
para processar.
Olhar para
além do próprio umbigo
No entanto,
mesmo quem não foi agraciado por uma inibição mais tênue angaria vantagens na
procura por lampejos intelectuais quando se dedica a compilar o maior número
possível de idéias e impressões. E ao fazê-lo cada um deveria, sem falta,
preocupar-se com olhar para além das fronteiras de sua própria área de atuação,
rumo a mundos diversos. Pois o excesso de conhecimento especializado não deve
impedir o caminho da criação inventiva.
Via de regra a
criatividade não sabe lidar com pressão. É por isso que muitos achados geniais
nasceram também fora dos laboratórios - em situações que nada têm a ver com o
trabalho. Arquimedes estava deitado na banheira quando lhe ocorreu a lei do
empuxo e ele bradou seu famoso "Heureka!". August Kekulé sonhava com
serpentes que mordiam o próprio rabo. A grande descoberta ele fez no dia
seguinte: a estrutura química do benzol tinha que ser aneliforme.
Lampejos
intelectuais criativos ocorrem para a maioria das pessoas em situações nas
quais elas estão justamente pensando em algo totalmente diverso: nas férias, no
passeio de domingo ou antes de adormecer. Esse fenômeno tem uma explicação:
desde que o cérebro tenha sido alimentado corretamente na fase de preparação, é
notório que continua trabalhando em uma solução, mesmo quando nos afastamos do
problema por algum tempo. Esse processo que antecede a descoberta inusitada se
denomina incubação.
Estudiosos da
criatividade supõem que nessa fase atenuam-se as ligações associativas entre
idéias e noções presentes na memória, as quais são sobrecarregadas e alteradas
por outras informações que chegam nesse entremeio. Portanto, um pouco de
descontração e distância temporal transformam o olhar que incide sobre o
problema, sem que esse processo se torne consciente; assim, garantem-se
discernimentos alternativos e criam-se as condições para uma nova tentativa de
solução, talvez mais criativa.
Dessa maneira,
segundo Steven M. Smith, nosso cérebro poderia superar as barreiras de
pensamento, durante a fase de incubação. Em um momento qualquer, novas
associações irrompem e o espírito criativo finalmente recebe a tão esperada
recompensa: a iluminação, o conhecimento intuitivo e repentino: "É
isso!" Segundo o modelo de fases do pensamento criativo, o cérebro é
praticamente obrigado a nos agraciar com esse momento de revelação - desde que
haja uma fase de preparação adequada e, na seqüência, uma fase de incubação.
Fica uma pedra
no caminho: os processos que se cumprem durante a fase de incubação permanecem
ocultos à nossa consciência, portanto não podem ser influenciados nem
acelerados de maneira ativa. Por isso, mesmo quem tem o mais criativo dos espíritos
precisa às vezes exercitar-se em uma determinada arte: a paciência.
|
Dicas para o
pensamento criativo |
|
|
|
|
|
|
|
Para
conhecer mais |
|
|
|
|
|